quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

PERI: O HERÓI MEDIEVAL BRASILEIRO

José de Alencar escreveu no século XIX o romance O Guarani criando o personagem Peri, forte e honrado. O Brasil precisava de uma história com a qual o povo, extasiado pelas mudanças sociais ocorridas a partir dos anos de 1808, se identificasse.  Peri nativo, atlético, ágil, perfeitamente inserido na natureza serviu perfeitamente no objetivo romântico de formar a identidade cultural do Brasil que conquistara recentemente sua independência (1822).
Para conseguir o efeito de tornar o indígena o herói nacional, José de Alencar recorreu aos cavaleiros das novelas medievais, dotando o índio de lealdade, honra, coragem e força quase sobre-humanas:
Peri alucinado suspendeu-se aos cipós que se entrelaçavam pelos ramos das árvores já cobertas de água, e com esforço desesperado cingindo o tronco da palmeira no seus braços hirtos, abalou-o até as raízes.
Três vezes os seus músculos de aço, estorcendo-se, inclinaram a haste robusta; e três vezes o seu corpo vergou, cedendo a retração violenta da árvore, que voltava ao lugar que a natureza lhe havia marcado[...] (ALENCAR, 1857)
Pode-se dizer, que no intento de criar a verdadeira epopeia brasileira, e o nosso primeiro herói, José de Alencar buscou inspiração nas histórias e heróis da mitologia européia. O que fez o nosso romancista foi trocar “deserto escaldante” por nossas densas e desafiadoras florestas tropicais; o “dragão” pelas forças da natureza, “a donzela trancada na torre” pela européia em perigo e o “príncipe encantado” pelo nosso índio.
O índio luta  bravamente contra a natureza, como se esta fosse a mais implacável vilã da história. Mas luta com a tranqüilidade e serenidade de quem sabe que é superior a ela:
Luta terrível, espantosa, louca, esvairada: luta da vida contra a matéria; lata do homem contra a terra; lata da força contra a imobilidade[...]
Houve um momento de respouso em que o homem, concentrando todo o seu poder, estorceu-se de novo contra a árvore; o ímpeto foi terrível; e pareceu que o corpo ia despedaçar-se nessa distensão horrível:
Ambos, árvore e homem, embalançaram-se no seio das águas: a haste oscilou; as raízes desprenderam-se da terra já minada profundamente pela torrente[...] (ALENCAR,1857)
            Em outro trecho, diante de um provável ataque de uma onça feroz, Peri apresenta proezas que são próprias de heróis lendários e idealizados. O índio encara com enorme tranquilidade o bote do animal e com agilidade e destreza domina o felino:
Era uma onça enorme; de garras apoiadas sobre um grosso ramo de árvore, e pés suspensos no galho superior, encolhia o corpo, preparando o salto gigantesco.
O índio, sorrindo e indolentemente encostado ao tronco seco, não perdia um só desses movimentos, e esperava o inimigo com a calma e serenidade do homem que contempla uma cena agradável: apenas a fixidade do olhar revelava um pensamento de defesa.
Era uma lata de morte a que ia se travar; o índio o sabia, e esperou tranqüilamente, como da primeira vez; a inquietação que sentira um momento de que a presa lhe escapasse, desaparecera: estava satisfeito.
Assim, estes dois selvagens das matas do Brasil, cada um com as suas armas, cada um com a consciência de sua força e de sua coragem, consideravam-se mutuamente como vítimas que iam ser imoladas.
Esta luta durou minutos; o índio, com os pés apoiados fortemente nas pernas da onça, e o corpo inclinado sobre a forquilha, mantinha assim imóvel a fera, que há pouco corria a mata não encontrando obstáculos à sua passagem.
Quando o animal, quase asfixiado pela estrangulação, já não fazia senão uma fraca resistência, o selvagem, segurando sempre a forquilha, meteu a mão debaixo da túnica e tirou uma corda de ticum que tinha enrolada à cintura em muitas voltas. (ALENCAR, 1857)
            E são muitos os atos heróicos praticados por Peri em defesa de Ceci e da família de D. Antonio de Mariz fato que coloca o indígena como um vassalo do colonizador europeu e do amor impossível, jamais concretizado, que nutre por sua senhora, a donzela Ceci:
— Tu viverás!...
Cecília abriu os olhos, e vendo seu amigo junto dela, ouvindo ainda suas palavras, sentiu o enlevo que deve ser o gozo da vida eterna.
— Sim?... murmurou ela: viveremos!... lá no céu, no seio de Deus, junto daqueles que amamos!...
O anjo espanejava-se para remontar ao berço.
— Sobre aquele azul que tu vês, continuou ela, Deus mora no seu trono, rodeado dos que o adoram. Nós iremos lá, Peri! Tu viverás com tua irmã, sempre...!
Ela embebeu os olhos nos olhos de seu amigo, e lânguida reclinou a loura fronte.
O hálito ardente de Peri bafejou-lhe a face.
Fez-se no semblante da virgem um ninho de castos rubores e límpidos sorrisos: os lábios abriram como as asas purpúreas de um beijo soltando o vôo.
A palmeira arrastada pela torrente impetuosa fugia...
E sumiu-se no horizonte. (ALENCAR, 1857)
No trecho citado, Peri salva Ceci de um dilúvio que arrasta, além da palmeira o passado do indígena e da européia. A água que destrói, também renova e os torna iguais. Naquele momento, deixam de serem o que são, povos antagônicos, e se tornam apenas um homem e uma mulher seguindo a filosofia da “vida natural” defendida por Rousseau.
Dessa forma, o romance O Guarani vem a desempenhar o seu papel romântico de criar uma identidade nacional para a nação recém emancipada politicamente. Resgatando o perfil do herói medieval e a idealização cavalaresca, José de Alencar cria com esse folhetim uma verdadeira epopeia da formação do povo brasileiro.

Elizeu Domingos Tomasi -  Literatura Brasileira I

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