sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

MOVIMENTO CONTRA O BBB



ARTIGO ESCRITO  POR LUIZ FERNANDO VERÍSSIMO
Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço. A nova edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência. 
Dizem que Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB  é a pura e suprema banalização do sexo.
Impossível assistir ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros...todos na mesma casa ( a casa dos heróis?), como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterossexuais. O BBB  é a realidade em busca do IBOPE.  

Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB . Ele prometeu um zoológico humano divertido. Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas. 

Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade. 

Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos exemplos de heróis? Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores) , carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre são mal remunerados. 
Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a isso todo dia. 

Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna. Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, ONGs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína Zilda Arns). 

Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo. 

O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral. São apenas pessoas que se prestam a comer, beber, tomar sol, fofocar, dormir e agir estupidamente para que, ao final do programa, o ?escolhido? receba um milhão e meio de reais. E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!!

Veja o que está por de tra$$$$$$$$$ $$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão. 

Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros? (Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores) 

Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores. Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ir ao cinema...., estudar... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... , telefonar para um amigo... , ·visitar os avós... , pescar..., brincar com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir. Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construído nossa sociedade.

 
 Esta crônica está sendo divulgada pela internet a milhões de e-mails.




sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

CASO BBB e LUIZA (que não está mais) NO CANADÁ

O BRASIL, OU MELHOR OS BRASILEIROS, ESTÃO MESMO UMA PIADA! QUALQUER BESTEIRA NA INTERNET OU NA  TV VIRA NOTÍCIA, VIRA FEBRE, VIRA HIT. ACHAMOS MPB UMA PORCARIA, (PORQUE É BRASILEIRA), MAS IRONICAMENTE  CURTIMOS O HIT "PINTINHO PIU". ENQUANTO O ENEM É ALVO DE TANTAS POLÊMICAS A JUVENTUDE DISCUTE "ESTUPRO NO BBB" E DÁ "FAMA" PARA GAROTA QUE ESTAVA NO CANADÁ, QUE NADA FEZ E NEM AO MENOS TINHA CONSCIÊNCIA DO QUE SE PASSAVA EM UM LONGÍNQUO PAÍS CHAMADO BRASIL.

SÁBIAS AS PALAVRAS DE CARLOS NASCIMENTO...  


VERDADEIRAMENTE SE FOI O TEMPO EM QUE OU SE TINHA TALENTO, OU SE CORRIA ATRÁS DOS 15 MINUTOS DE FAMA! HOJE SÓ PELO FATO DE EXISTIR JÁ SE É "FAMOSO".

ENFIM, LUIZA JÁ VOLTOU DO DO CANADÁ E NÓS BRASILEIROS, QUANDO VOLTAREMOS À REALIDADE?

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

CULTISMO E CONCEPTISMO NO SERMÃO DA QUINTA DOMINGA DA QUARESMA DO PADRE ANTONIO VIEIRA

            Possuidores de uma perfeita retórica e de uma habilidade ímpar de trabalhar com a linguagem, os sermões do Padre Antônio Vieira ficaram famosos pelo seu poder de persuasão. Esta habilidade persuasiva deu a Viera atuação na área da diplomacia e também acarretou problemas com o Tribunal do Santo Ofício.
[...] dois anos e quase três meses esteve Vieira na Inquisição de Coimbra incomunicável num cubículo de quinze palmos por doze, sem receber luz senão através de um corredor. Móveis, eram apenas o cântaro d’água e as vasilhas para os despejos. Livros, nenhum, a não ser o breviário e, mais tarde, a Bíblia. Não se sabe se, em atenção à idade – perto dos sessenta anos – lhe facultaram o regalo de um leito, uma mesa e um banco para redigir sua defesa escrita. (LINS, p. 120)
            Seu grande prestígio como orador, porém acabou-lhe garantindo o perdão papal. De volta ao Brasil, preocupou-se em organizar seus sermões; dentre os quais encontramos No Sermão da Quinta Dominga da Quaresma, ministrado no ano de 1654 na Igreja Maior da Cidade de São Luís no Maranhão, Vieira discorre sobre a relação antagônica entre a verdade e a mentira.
            Apresentando estrutura fortemente conceptista, Vieira inicia seu sermão expondo a idéia, ou moral que vai defender: “A verdade e a mentira: a verdade do pregador e a mentira dos ouvintes.” Em seguida, o orador recorre (por diversas vezes) às Escrituras para enraizar e dar veracidade ao seu discurso. A fim de efetivar a compreensão de seu auditório, composto de gente de todos os tipos, Vieira confirma as Escrituras e seu discurso por meio de diversas alegorias e exemplos que melhor materializem o que diz, ou como diz:
Mais sucede nesta passagem dos ouvidos à boca. Como os ouvidos são dois, e a boca uma, sucede que, entrando pelos ouvidos duas verdades, sai pela boca uma mentira. Parece coisa de trejeito, mas é tão certa, que a primeira mentira que disse no mundo foi desta casta: uma mentira feita de duas verdades. (VIEIRA, 1654)
            “No Maranhão até o sol e os céus mentem... No Maranhão não há verdade.” A um pregador é dado analisar a sua realidade, Vieira expressa na primeira afirmação a cultura de mentira que existia no Maranhão e na segunda afirmação sustenta a primeira por meio de um raciocínio lógico: se mentem não há verdade. O orador faz nessa passagem um jogo de ideias que sustenta sua argumentação.
            Segue ainda a estrutura conceptista de Vieira abusando de analogias e comparações afim de melhor representar e materializar o que prega como na passagem a seguir onde o pregador compara a presença do diabo nas nações com características de suas povos fazendo uma espécie de caricatura dos povos europeus:
 “Dizem que a cabeça do diabo caiu em Espanha, e que por isso somos furiosos, altivos, e com arrogância graves. Dizem que o peito caiu em Itália, & que daqui lhes veio serem fabricadores de máquinas, não se darem a entender, & trazerem o coração sempre coberto. Dizem que o ventre caiu em Alemanha, & que esta he a causa de serem inclinados à gula, & gastarem mais que os outros com a mesa & com a taça. Dizem que os pés caíram em França, & que daqui nasce serem pouco sossegados, apressados no andar, & amigos de bailes. Dizem que os braços com as mãos & unhas crescidas, um caiu na Holanda, outro em Argel, & que daí lhes veio – ou nos veio – o serem corsários. Esta he a substancia do apólogo, nem mal formado, nem mal repartido, porque, ainda que a aplicação dos vícios totalmente não seja verdadeira, tem com tudo a semelhança de verdade, que basta para dar sal à sátira. E, suposto que à Espanha lhe coube a cabeça, cuido eu que a parte dela que nos toca ao nosso Portugal he a língua, ao menos assim o entendem as nações estrangeiras que de mais perto nos tratam. Os vícios da língua são tantos, que fez Drexélio um abecedário inteiro, & muito copioso deles” (VIEIRA, 1654)        

Antonio Vieira segue no Sermão da Quinta Dominga da Quaresma essa estrutura conceptista que ele mesmo propusera no Sermão da Sexagésima onde critica o Cult ismo de certos pregadores, que em lugar de desenvolver uma argumentação consistente preocupam-se em enfeitar a linguagem tornando-a incompreensível.
Assim neste sermão, da Quinta Dominga da Quaresma, vemos uma engenhosa construção argumentativa rica em alegorias, comparações criando contrastes (verdade/mentira), simbologias originais (se mentem não há verdade) sempre os apresentando por meio de raciocínio claro e lógico que envolvia o publico seduzindo-o às conclusões que a ele e ao objetivo do sermão interessavam; características estas que fizeram de Antonio Vieira o mais importante e persuasivo representante do Barroco no gênero da oratória.

ELIZEU DOMINGOS TOMASI - Literatura Portuguesa 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

PERI: O HERÓI MEDIEVAL BRASILEIRO

José de Alencar escreveu no século XIX o romance O Guarani criando o personagem Peri, forte e honrado. O Brasil precisava de uma história com a qual o povo, extasiado pelas mudanças sociais ocorridas a partir dos anos de 1808, se identificasse.  Peri nativo, atlético, ágil, perfeitamente inserido na natureza serviu perfeitamente no objetivo romântico de formar a identidade cultural do Brasil que conquistara recentemente sua independência (1822).
Para conseguir o efeito de tornar o indígena o herói nacional, José de Alencar recorreu aos cavaleiros das novelas medievais, dotando o índio de lealdade, honra, coragem e força quase sobre-humanas:
Peri alucinado suspendeu-se aos cipós que se entrelaçavam pelos ramos das árvores já cobertas de água, e com esforço desesperado cingindo o tronco da palmeira no seus braços hirtos, abalou-o até as raízes.
Três vezes os seus músculos de aço, estorcendo-se, inclinaram a haste robusta; e três vezes o seu corpo vergou, cedendo a retração violenta da árvore, que voltava ao lugar que a natureza lhe havia marcado[...] (ALENCAR, 1857)
Pode-se dizer, que no intento de criar a verdadeira epopeia brasileira, e o nosso primeiro herói, José de Alencar buscou inspiração nas histórias e heróis da mitologia européia. O que fez o nosso romancista foi trocar “deserto escaldante” por nossas densas e desafiadoras florestas tropicais; o “dragão” pelas forças da natureza, “a donzela trancada na torre” pela européia em perigo e o “príncipe encantado” pelo nosso índio.
O índio luta  bravamente contra a natureza, como se esta fosse a mais implacável vilã da história. Mas luta com a tranqüilidade e serenidade de quem sabe que é superior a ela:
Luta terrível, espantosa, louca, esvairada: luta da vida contra a matéria; lata do homem contra a terra; lata da força contra a imobilidade[...]
Houve um momento de respouso em que o homem, concentrando todo o seu poder, estorceu-se de novo contra a árvore; o ímpeto foi terrível; e pareceu que o corpo ia despedaçar-se nessa distensão horrível:
Ambos, árvore e homem, embalançaram-se no seio das águas: a haste oscilou; as raízes desprenderam-se da terra já minada profundamente pela torrente[...] (ALENCAR,1857)
            Em outro trecho, diante de um provável ataque de uma onça feroz, Peri apresenta proezas que são próprias de heróis lendários e idealizados. O índio encara com enorme tranquilidade o bote do animal e com agilidade e destreza domina o felino:
Era uma onça enorme; de garras apoiadas sobre um grosso ramo de árvore, e pés suspensos no galho superior, encolhia o corpo, preparando o salto gigantesco.
O índio, sorrindo e indolentemente encostado ao tronco seco, não perdia um só desses movimentos, e esperava o inimigo com a calma e serenidade do homem que contempla uma cena agradável: apenas a fixidade do olhar revelava um pensamento de defesa.
Era uma lata de morte a que ia se travar; o índio o sabia, e esperou tranqüilamente, como da primeira vez; a inquietação que sentira um momento de que a presa lhe escapasse, desaparecera: estava satisfeito.
Assim, estes dois selvagens das matas do Brasil, cada um com as suas armas, cada um com a consciência de sua força e de sua coragem, consideravam-se mutuamente como vítimas que iam ser imoladas.
Esta luta durou minutos; o índio, com os pés apoiados fortemente nas pernas da onça, e o corpo inclinado sobre a forquilha, mantinha assim imóvel a fera, que há pouco corria a mata não encontrando obstáculos à sua passagem.
Quando o animal, quase asfixiado pela estrangulação, já não fazia senão uma fraca resistência, o selvagem, segurando sempre a forquilha, meteu a mão debaixo da túnica e tirou uma corda de ticum que tinha enrolada à cintura em muitas voltas. (ALENCAR, 1857)
            E são muitos os atos heróicos praticados por Peri em defesa de Ceci e da família de D. Antonio de Mariz fato que coloca o indígena como um vassalo do colonizador europeu e do amor impossível, jamais concretizado, que nutre por sua senhora, a donzela Ceci:
— Tu viverás!...
Cecília abriu os olhos, e vendo seu amigo junto dela, ouvindo ainda suas palavras, sentiu o enlevo que deve ser o gozo da vida eterna.
— Sim?... murmurou ela: viveremos!... lá no céu, no seio de Deus, junto daqueles que amamos!...
O anjo espanejava-se para remontar ao berço.
— Sobre aquele azul que tu vês, continuou ela, Deus mora no seu trono, rodeado dos que o adoram. Nós iremos lá, Peri! Tu viverás com tua irmã, sempre...!
Ela embebeu os olhos nos olhos de seu amigo, e lânguida reclinou a loura fronte.
O hálito ardente de Peri bafejou-lhe a face.
Fez-se no semblante da virgem um ninho de castos rubores e límpidos sorrisos: os lábios abriram como as asas purpúreas de um beijo soltando o vôo.
A palmeira arrastada pela torrente impetuosa fugia...
E sumiu-se no horizonte. (ALENCAR, 1857)
No trecho citado, Peri salva Ceci de um dilúvio que arrasta, além da palmeira o passado do indígena e da européia. A água que destrói, também renova e os torna iguais. Naquele momento, deixam de serem o que são, povos antagônicos, e se tornam apenas um homem e uma mulher seguindo a filosofia da “vida natural” defendida por Rousseau.
Dessa forma, o romance O Guarani vem a desempenhar o seu papel romântico de criar uma identidade nacional para a nação recém emancipada politicamente. Resgatando o perfil do herói medieval e a idealização cavalaresca, José de Alencar cria com esse folhetim uma verdadeira epopeia da formação do povo brasileiro.

Elizeu Domingos Tomasi -  Literatura Brasileira I

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

EDUCAÇÃO: UMA AGENDA URGENTE


BOCA DO INFERNO: A PUNIÇÃO PARA A LÍRA MALDIZENTE DE GREGÓRIO DE MATOS

                  É comum encontrarmos sentimentos pessimistas de brasileiros em relação à sociedade moderna em que vivemos. Desorganização, corrupção, violência, desigualdade, falta de valores e princípios acompanham a população brasileira desde a época da colônia.  Como viver em uma sociedade onde o individual (de alguns) se sobressai ao coletivo? Alguns se manterão alheios, mas outros procurarão se manifestar de alguma maneira. E foi esta última a opção escolhida por Gregório de Matos.

            Filho de mãe baiana e pai português, Gregório de Matos formou-se em direito em Coimbra e advogou na Bahia onde se tornou conhecido por sua vida desregrada, contrastando com sua fé no catolicismo. Como forma de “não comungar” com a desordem baiana do século XVII Gregório de Matos fez uso de afiadas sátiras em seus poemas por meio dos quais denunciou a corrupção, o abuso de poder e a ambição que dominavam a colônia e faziam do Brasil a terra da malandragem.
Gregório de Matos é um poeta que expressa exemplarmente o espírito contraditório do Barroco. Se por um lado, mostrou-se temente a Deus e a fé Católica e escreveu versos de louvor ao amor platônico; por outro lado, foi impiedoso e ferino ao condenar nominalmente as pessoas que viviam em busca de obter todo tipo de vantagem para si próprio. (COUTINHO, 1996)

            Com forte tom de revolta, o eu lírico dos poemas de Gregório de Matos usou da denúncia como maneira de viver bem na sociedade de seu tempo. Nesse sentido, afetou pessoas ilustres e de poder em Salvador do século XVII. Dessa maneira, com suas acusações pessoais e críticas impiedosas a certos comportamentos da sociedade barroca brasileira, o poeta barroco atraiu a ira e muitos conterrâneos, que incomodados com a língua afiada de Gregório o chamavam de Boca do Inferno. Segundo Ana Miranda (1994), “Gregório de Matos estava ali, no lado escuro do mundo, comendo a parte podre do banquete. Sobre o que poderia falar?”
            Podemos exemplificar a afirmação de Ana Miranda com vários poemas de Gregório de Matos. Vivenciando a realidade de desordem e corrupção da sociedade baiana, no soneto Quem cá quiser viver, seja um Gatão¹, Gregório tece críticas diretas a Chegai, Gaspar Soares, Pedro de Unhão e Gil que poderiam ser personalidades influentes da vida baiana da época. Ainda no mesmo poema encontramos: “Coma, beba, e mais furte, e tenha amiga²,”³ deixando nítida sua insatisfação com a ausência de lei e com a vida desregrada que a população baiana levava.
            Em fim, como ficar quieto, assistindo de camarote tanta injustiça, impunidade e desordem que ocorrem no cotidiano da sociedade?  E assim não é de se estranhar que os versos de Gregório de Matos “colocando a boca no trombone”, denunciando, e criticando a tudo e a todos, tornaram-se populares e dividiram a opinião. Como todo o sarcástico, Gregório, tornou-se amado por alguns e odiados por muitos ficando assim, conhecido pela alcunha de “Boca do inferno” ou “Boca de Brasa”.

ELIZEU DOMINGOS TOMASI -  LITERATURA BRASILEIRA I

sábado, 10 de dezembro de 2011

Nova Carta ao El-Rei Sobre o Achamento do Brasil

Senhor:
              Visto que atracamos em terras desconhecidas, por ser meu oficio, venho informar sobre a tal. A cerca da viagem, o Capitão-mor dessa vossa esquadra será mais digno de comunicar. Me encarrego aqui da descoberta, talvez a maior de todas as realizadas por Vossa Alteza.
              Quão formosa, meu senhor, são estas terras!  Avistamos das embarcações uma bela praia. O mar vai de encontro a um manto suave de areia branca e ao se tocarem, parecer amorosamente abraçar-se; a areia beija as ondas que retornam para o mar, mas com certeza de que um dia retornarão para esta mesma praia. Completando a perfeita aquarela que apreciamos, está o verde marcante de uma mata inexplicavelmente rica e vasta com árvores de todos os tamanhos e formas – uma infinita monocromia de verdes.
              Só notamos que não estávamos diante de uma pintura, porque ao nos aproximarmos da praia, nosso êxtase foi quebrado por uma sinfonia de aves com exuberantes plumagens multicoloridas. São diversas essas aves por aqui! Suas revoadas trazem ainda mais beleza à paisagem que causam grande fascínio aos nossos olhos e com certeza encheriam também aos olhos de Vossa Alteza. Pela perfeição do que vemos, temos a impressão de que chegamos ao verdadeiro Jardim do Éden!
              Ao atracarmos, o capitão envia uma pequena expedição de cinco homens para fazer o reconhecimento da terra. Acompanhamos da embarcação quando alguns homens surgem da mata. Diferentes de nós, aqueles homens parecem fazer parte do quadro que esta terra se aparenta. Parecem felizes, mesmo  sendo simples e parecendo ingênuos. Aproximam-se de nossos homens e logo vão os cumprimentando com forte aperto de mão e um caloroso abraço. Parecem amigáveis! Descemos e vamos ter com eles.
              Outros homens veem ao nosso encontro e entre eles algumas jovens. Como são encantadoras! O sorriso estampado no rosto bem desenhado parece acompanhar o requebrado que acompanha o cantar dos pássaros e o quebrar das ondas nas pedras da praia. Somos acomodados na sombra de uma palmeira e ao som de pássaros tenores - que mais tarde viemos saber que se chamavam sabiás – assistimos o bailar daquelas jovens que pareciam ter molas em vez de ossos a requebrar seu corpo num ritmo excitante, nunca antes visto por nós.
              Creio, meu senhor, que em nenhum outro lugar do mundo encontrarás um povo tão harmônico e homogêneo como este. Parece-me que o mundo todo está aqui! Quanto mais as mulatas requebram, mais gente chega brancos, pretos, mulatos, asiáticos, japoneses... Esse povo não tem cor definida, parece ter várias caras e um único pensamento: divertir e se divertir. Não sabemos ao certo onde estamos, mas chegamos numa espécie de paraíso, isso é fato!
              Sei que sou apenas um escrivão e não seu conselheiro real, mas Vossa Alteza, ouça o conselho que lhe dou: “ Isso aqui que é mundo! Pega a prenda e os guri e bora prá cá! Porque eu, daqui não saio! Daqui ninguém nem me tira! – E dele samba!”
              Espero Vossa Alteza!

Ex-escrivão da Armada

ELIZEU DOMINGOS TOMASI  Atividade  de Literatura Brasileira I
             

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Os conselhos e a temporada de final de ano letivo. Ritos de passagem?


Antonio Gil Neto

“Ouça um bom conselho/
Que eu lhe dou de graça/ Inútil dormir que a dor não passa.” (in Bom Conselho, Chico Buarque)
Seguro a xícara de café ainda fumegando. Boto um pouco de leite frio para acalmar a quentura e automaticamente ligo a tv, mas olho a tela da janela. Tenho preciosos minutos de existir nessa manhã comum e singular. Viro para a outra tela. Acabo por beber uma notícia do jornal: em duas escolas da capital, alunos mais que  alvoroçados comemoram o encerramento do ano letivo. Fabricam barbaramente uma chuva de pápeis rasgados feito confete e serpentina improvisados através de uma rápida destruição de livros, cadernos, apostilas e textos utilizados ao longo do ano. Vi a frente das escolas inundadas por esses materiais esfacelados em burburinhos de vitória. O que me fez desligar a tv, mas me ligar e compreender melhor a minha decepção.
Em meio a tanto sentimento ruim fiquei pensando se o que acontece pode nos revelar algo mais desses rituais que marcam os chamados finais de anos letivos.
Logo me aparecem aos olhos essa temporada marcada pelos conhecidos conselhos avaliativos... De “conselho” muitas vezes eles pouco têm, ninguém aconselha, se aconselha, indica e se agrega a nada. Quase sempre é espaço generalizado de cumprir exigências, quando não vira passarela de lamentações ou exposição de um arsenal de lavados argumentos de defesa ou acusação sempre distantes de alguns réus inconfessos. Um mar de tarefas burocráticas plenamente justificáveis a quem se aprouver. (Tomara que o conselho de sua escola não seja nada assim…) Quando não fica com ar de caça às bruxas e tudo vira um campo de julgamentos sem fim. Muitas vezes um mesmo aluno, em análise, passa de bandido a mocinho, dependendo dos olhos de quem vê. Acho que a divergência de olhares que se concretizam num conselho que se preze devem ter seu prumo numa espécie de colheita efetivada no ano. Afinal,  o que produzimos?
Precisamos pensar que um conselho de classe não é e nem determina um fim. Mas sim, é desfecho. Encerra-se um ano letivo para reabri-lo em nova temporada: o próximo ano letivo que já está batendo a nossa porta. Os protagonistas - alunos, educadores e pais – os que atuaram no ano que passou muito provavelmente serão os mesmos do ano subsequente. Desempenharão outros e novos papéis, dependendo da trama que será oportunamente oferecida. Como um círculo vicioso onde tudo de repete ou um ciclo de ciclos que poderão se renovar nos ritmos vivenciados.
Que perspectivas temos em meio à exaustiva enxurrada de conselhos de classe? Boa pergunta! Passam pelos nossos crivos muitas vezes tão indefinidos uma legião de alunos e classes mirados sob as mais diversas óticas. Que horizontes vislumbramos depois dessas juntas pedagógicas? Dá vontade de sumir, ir para casa descansar, fazer outra chuva de papéis com as lições que levamos adiante? Ou saímos com nova orientação, perspectivas  para recomeçar?
Nesses conselhos de final de ano o que precisa estar em pauta, muito mais do que verificar o rendimento obtido pelos alunos é a boa oportunidade para vir ao centro as nossas vozes e olhares, os que estarão presentes e voltarão a realizar o próximo trabalho educacional:  aos moldes do que rolou durante o ano ou com alguns acertos e novos ajustes. Já imaginou se pudéssemos assistir a um documentário feito anonimamente sobre o que rola a portas fechadas ou abertas, em todas as áreas, salas e espaços da nossa escola? Que fulgurantes surpresas poderíamos ter ao nos revelarmos numa dúvida em continuar ou redirecionar alguma atividade pensada para fazer sucesso, mas que encontra o seu maior burro nágua, por exemplo. Já pensou?  Podemos nos tornar simultaneamente diretores, protagonistas e espectadores críticos desse nosso fazer. Nesse espaço de rever o filme, o conselho, entraremos com cara, coragem e medos desvelados para engendrar jeitos que possam renovar o processo coletivo de ensinar, não é?
Fiquei pensando, agora que a xícara já está fria e espera outro café, que muitos guardam num lugar especial da memória a marca indelével da presença e do encontro com um professor. Seremos linha dágua na vida de nossos alunos? Investimos nesse potencial que temos em ser referência? Quantos pais irão à escola nesse fim de ano agradecer pelo trabalho realizado, ou seja por seu filho ter usufruído do direito de aprender? Fico vilsumbrando que a escola talvez precise investir nesse lugar de reconhecimento e gratidão. Por ele, um mapa de aprendizagens…
É bem comum nessas temporadas haver um clima de stresse generalizado, quando os educadores parecem sofrer crises existenciais como se faltasse  brevíssimo tempo para terminar algo difícil e pezaroso. Penso que estas crises viram ritual sem importância. Por outro lado, em tempo de crises podemos reestruturar as nossas ações, desejos e intenções. Mas, não embarquemos em paixões tristes. É hora de avaliar pra valer os verdadeiros contornos sobre o que poderá nos colocar em outras trilhas. Mais esperançosas e possíveis.  
Talvez nessa banalização de fim ou de dever cumprido fosse hora de se iluminar entre os educadores que se comprometem com o próximo fazer a ideia de balanço que nos potencializa para recomeçar bem e melhor. Não sei como algumas pessoas aguentam repetir tudo de novo, sem repensar sobre ele e transformá-lo como café fresco. Como se o ano letivo fosse uma longa lista de palavras iguais para se copiar. Ou um eterno requentar…
Acho que foi-se o tempo em que a reprovação era algo temido como fantasmas emergindo do porão mais subterrâneo. Hoje em dia, mais do que reprovar talvez seja mais útil pensarmos em aprovar estratégias e como torná-las viáveis para que os alunos aprendam, se interessem por temas e assuntos, avancem, se apropriem de conteúdos que lhes serão significativos, leiam literatura de verdade, se expressem interativmente, vislumbrem futuros. Fico na dúvida se todos os alunos com boas notas também sentem mesmo o sentimento de dever cumprido, algo almejado e atingido. E de quebra uma pitada de ansiedade pelas férias. Só sinto agora é que o trabalho coletivo nas unidades escolares poderiam estar mais a serviço de saber ou procurar chegar mais perto da dificuldade dos alunos, descobrir o que elas escondem para poder vislumbrar ações que possam ajudá-los a sair dessa.  Dizer que está mal é fácil. É preciso investigar mais e se lançar de estratégias e atividades diversificadas e planejadas que se alimentem dessas problemáticas e se transformem paulatinamente  em soluções. Não seriam as dificuldades um campo de pesquisas em nosso próprio fazer?
Já fiz parte de muitos conselhos nos quais todos os alunos tidos como indisciplinados pelas mais diversas causas eram logo pendurados no paredão dos reprovados. Ou melhor, dos que não têm jeito. Não estariam aqui mesclados os tantos tipos de inteligentes? Raras foram as vezes em que os educadores pensaram séria e incomodadamente em analisar um pouco mais a fundo essa situação de emparedamento pedagógico. Eles não sabem nada? Não saberão? Sem chance nenhuma? Não temos nada a ver com isso? Poucos se enveredaram em fazer algo especialmente arquitetado para ser posto a prova exclusivamente para eles, os emparedados.
Um  conselho é o lugar onde se faz  jogo limpo. Ou seja, diante de nossos resultados  verificamos se saberemos e como poderemos mudar o jogo para ele ficar melhor. Não é um jogo de caça às bruxas, de inquisição pedagógica, de eleger heróis, expor os vilões ou nomear os carentes. Nem é lugar de passes de mágica. É lugar de transparências, de equilibrio. De ponderar, analisar, levantar hipóteses educadoras, criar, estabelecer rotas de mudança. É mesmo um ritual de passagem.
Espero não estar dizendo que os conselhos não funcionam tão bem. Nem posso dizer isso do seu conselho, mas você pode me emprestar o seu olhar e sua voz imperceptível e dizer isso como sentir. Espero vislumbrar novas possibilidades para ele. Para se transformar em lugar de desfecho. O que se abre para novas histórias. Com uma leve vontade de quero mais.
Você até poderia me dizer (ao dizer agora para os seus botões leitores) como os alunos da sua escola estão sentindo a rota final desse ano letivo. Veja só o que deu ver o jornal logo de manhã!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A CARTA DE CAMINHA E OS TEXTOS FUNDACIONAIS


A Carta de Caminha, antes de ser um texto documental ou literário, é a expressão pessoal de um homem  sobre o novo e principalmente o exuberante. Ao se deparar com a chamada Terra de Vera Cruz e principalmente com os habitantes, tanto exóticos como selvagens (aos olhos portugueses); Caminha expressou nitidamente suas surpresas na carta, que assim como os Sermões de Anchieta fundamentaram a literatura e a cultura brasileira registrando os primeiros passos da colônia.
Pero Vaz de Caminha, o escrivão da armada de Cabral, escreve de maneira pessoal ao rei D. Manuel I com o objetivo de descrever o achamento da nova terra com a clara intenção de receber o perdão real ao seu genro Jorge Osório. Nessa empreitada, caminha se deixa levar muitas vezes pela impressão, sua emoções como também pelo oficio de escrever ao rei.
Observa-se nos registros do escrivão o choque que foi, aos olhos da civilização europeia, se deparar com uma população que vivia nua e principalmente sem aparentar vergonha disso ou por isso. Comprova-se isso por em diversas passagens da carta Caminha afirmar com tom de espanto que “andavam nus sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas.” (CAMINHA, 1963) E nesse sentido, a perfeição e a ingenuidade das mulheres nativas também marcaram os olhos de Caminha que em diversos trechos descreve detalhadamente ao rei que são “ bem novinhas e gentis; e suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonham.” (CAMINHA, 1963)
Outro ponto que causou estranhamento aos europeus foram os adornos, as pinturas e o porte físico dos corpos dos nativos, que aos seus olhos eram mais perfeitos que os corpos portugueses, mesmo não dispondo de uma alimentação vasta como a europeia: “seus corpos são tão limpos e tão gordos e tão formosos que não podem ser mais!” (CAMINHA, 1963) Este espanto pelos corpos nativos e principalmente pelas mulheres nativas, deixa claro o interesse de Caminha em fazer o rei perceber quão belo era o “achado”  e quanto seria útil desprender interesse e pessoas para converter aqueles selvagens ao cristianismo e “humanizá-los”.
Fernandes Brandão descreve o Brasil, “O Brasil é mais rico e dá mais proveito à fazenda de sua Majestade que toda a Índia, porque não me haveis de negar que para as mais que dela vêm, virem carregadas das fazendas que trazem, se desentranha todo esse Oriente [...]” (?), da mesma forma Caminha já em sua carta ao Rei descrevia a nova terra recém avistada “ houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos” (CAMINHA, 1963).
            Por isso tudo e muito mais, a Carta de Caminha é bem mais que uma simples carta ao rei, considerada a obra-prima das cartas-narrativas de viagem, a Carta do escrivão da armada, Pero Vaz de Caminha, dá inicio às manifestações literárias no Brasil Colônia, sendo de suma importância para o que mais tarde, com o Romantismo, viria a ser a Literatura Brasileira. Enfim, assim como Anchieta em seus sermões, Bento Teixeira em Prosopopéia; Caminha atesta não só a nova terra como o nascimento de uma nova cultura a qual hoje se tornaria tão, ou até mais, expressiva que a cultura da metrópole.

Elizeu Domingos Tomasi - Atividade Literatura Brasileira I

domingo, 13 de novembro de 2011

VIAGEM A PORTO ALEGRE - 12\11\2011

CAFÉ DA MANHÃ NA "QUINTA DA ESTÂNCIA" - Viamão 








MUSEU DA PUC - Porto Alegre























O ALMOÇO - CTG 35




VISITA AO ESTÁDIO OLÍMPICO MONUMENTAL - Grêmio











VISITA ESTÁDIO BEIRA - RIO - Internacional



PASSEIO DE BARCO NO RIO GUAÍBA